sexta-feira, 17 de abril de 2015

“CONTRIBUIR NÃO É ENSINAR, MAS SIM, COLABORAR PARA MELHOR QUALIFICÁ-LO”.


                              
Como diz Dalmo Duque, o conhecimento é a única porta de acesso à verdade.  Sem ele é praticamente impossível evoluir e a recusa ao seu acesso é um gesto de rebeldia e indiferença contra as leis do Universo. Quando aceitamos o conhecimento, reconhecemos que precisamos progredir intelectualmente e nos transformar espiritualmente, atitude que significa sempre luz e bem-aventurança. Significa também comprometimento, já que a posse do mesmo nos torna responsáveis pelas implicações dessas informações, seja no plano individual ou no coletivo. Quando recusamos o conhecimento, negamos a necessidade de progredir e bloqueamos a nossa maturação. Sofremos, quase sempre, as consequências negativas desse gesto, geralmente um sentimento de culpa e uma sensação de impotência diante das situações delicadas e desafiadoras. 
Eu com minha persistência desafiadora, fui adquirindo boas experiências ao ministrar aulas mesmo antes de me formar em um curso qualquer de capacitação ao magistério. Iniciei os trabalhos com bastante dificuldades, mas a necessidade de trabalhar era grande e por isso fui à luta todavia, tive boas colaboradoras e companheiras de trabalho que muito contribuíram, formávamos grupos de estudos e trocas de ideias com as professoras mais experientes, estudávamos muito, preparávamos as aulas juntas, assim fui compreendendo melhor o processo metodológico.

Quando mudei de Luciara para Porto alegre do norte, foi muito difícil pois precisava muito de uma sala de aula, com filhos pequenos para criar sem emprego e o que estava em processo de aprendizado era um pouco de experiência com alfabetização de crianças, mas não fui aceita na escola por motivo políticos. Comecei, dando aula de alfabetização em minha própria casa para os filhos de amigas e até mesmo para os filhos de outras professoras e assim a escola foi reconhecendo meu trabalho, uma vez que as crianças levavam ideias novas para suas salas de aula.
Um recurso dos quais enriqueceu bastante meus projetos e planos metodológicos, foram as experiências trazidas nas revistas Nova Escola, entretanto, faltava o mais importante a formação pedagógica. Na época já fazia parte do quadro de professores de uma escola estadual.
Surgiu a proposta para fazer parte do grupo de professores a ingressar no Projeto Logos II, um curso dos quais, estudava-se em casa e se deslocava para outros municípios para fazer as provas, um curso com pouca formação metodológica que não me sentia habitada, mas fazia por necessidade de um documento. Eu e mais uma colega da escola recebemos o convite para participar de uma reunião na secretaria de educação municipal, o qual o assunto abordado era o a oportunidade para ingressar num curso de férias. Ali foi apresentado a proposta do projeto, percebi que aquele curso era o meu perfil de filosofia educacional, o qual a linha era “aprender fazendo”, ou seja, nosso laboratório era a nossa própria sala de aula.
Na minha carreira um dos melhores momentos foi quando entrei no Projeto Inajá I, o do magistério, com aulas presencias durantes minhas férias com professores especialistas todos vindo da Unicamp e entre os intervalos havias as etapas intermediarias monitoradas com acompanhamentos pedagógicos, facilitando e valorizando minha criatividade e assim as ideias afloravam, construía muito material de apoio, eu tinha muito prazer, na realização dos trabalhos enriquecedores e interdisciplinar. No decorrer de todo meu processo de estudo, coloquei meus alunos como personagens principais na aplicação de novas experiências incentivando colocando-os a participar das feiras de ciências, a produzir textos e a construir livros, jogos... Etc.
O Projeto Inajá I foi o divisor de águas para alavancar minha carreira profissional, estudando e trabalhando com mais segurança, lutando sempre por uma educação de melhor qualidade. Fazendo com que o educando construísse seu próprio saber, valorizando a participação dos pais na educação formal de seus filhos, desde então considero-me personagem que fez parte da história da educação.
Veja o que disseram a equipe de Avaliação dessa cursista em fim de curso: - 1991
“A Jurandina participou do Projeto desde a pesquisa de preparação para a 1ª etapa intensiva, cujo tema por ela escolhido foi a História de Porto Alegre. No trabalho de sistematização teve problema com os colegas que não podiam discordar dos seus pontos de vista sem que ela perdesse o bom humor. Não aceitava críticas e queria sempre que valesse a sua opinião. Foi seu maior problema na 1ª etapa.
No início teve dificuldades de aceitar a proposta pedagógica do Projeto: irritava-se muito por não conseguir elaborar um relatório; irritava se sempre que tinha alguma dificuldade.
Jurandina tinha boas noções dos conteúdos das disciplinas do 1º grau. Em Português tinha leitura fluente e boa interpretação; expressava – se bem em linguagem oral e por escrito. Seus textos eram bem estruturados; as ideias, distribuídas em parágrafos, eram bem organizadas. Caligrafia muito legível, boa pontuação, poucos erros de ortografia.
Teve dificuldades iniciais na elaboração de relatórios não pela dificuldade, mas pelo fato de ter que selecionar e ordenar dados, levantar hipóteses, comprova-las... A cursista tinha dificuldade de aceitar o processo da construção do conhecimento.
Em Matemática, a novidade com relação aos conteúdos; do 1º grau foi a abordagem metodológica; o trabalho com material concreto, os instrumentos pedagógicos simples construídos por ela mesma: ábaco, colar de contas, arvore de cálculo. Fez com grande interesse os exercícios da cesta básica e, a partir disso, compreendeu regra de três, porcentagem e percebeu o alcance e a importância da Matemática na resolução de problemas cotidianos. Acompanhou com facilidade os conteúdos que, para ela, eram novos: equações, geometria, transformação de unidades de medidas.
Em Ciências Sociais ela tinha conhecimentos fragmentados de História: fatos históricos, datas comemorativas: tinha noções não aprofundadas de Geografia: faltava-lhe um fio condutor que mostrasse a inter-relação dos fatos históricos e a relação dialética de tempo presente e passado. A cursista localizava-se bem em seu pequeno mundo, mas não tinha visão global do universo e nem entendia a linguagem dos mapas.
Em Ciências Físicas e Biológicas participou de todas as atividades de Biologia e Física: fazendo pesquisas de campo sobre seres vivos, registrando os dados, anotando dúvidas para posteriores consultas e estudo. Observou, por exemplo, o desenvolvimento da goiaba, da manga e do abacaxi, das flores ao amadurecimento dos frutos. Anotou também os bichinhos que frequentam essas plantas nas diferentes épocas do ano. Esse trabalho foi decisivo na compreensão da metodologia em um trabalho científico. Fez pesquisa bibliográfica sobre epilepsia, malária e funções dos vegetais. Desfez equívoco que tinha sobre a transmissão da malária; interessou-se estudar mais sobre a epilepsia por já ter conhecido casos da doença e não ter clareza.
Na UNICAMP, por ocasião da 5ª etapa, aprendeu a coletar e preparar vegetais para se conservarem muito tempo e aprendeu também a organizar um herbário. O que mais lhe chamou a atenção foi às aulas de Anatomia, tanto na teoria como na prática, onde reconhecera o corpo humano, os órgãos pela observação direta.
Em Ciências Físicas fez a observação da trajetória (aparente) do sol através do gnomo, de ouriço e penico solar, Entendeu o que produz a eletricidade; construíra lunetas, câmara escura, densímetro, brinquedos de pilha.
Teve uma percepção muito clara dos planisférios; consegue localizar-se a partir de qualquer ponto de referência; aprofundou as noções de tempo e espaço; desenhou todo o trajeto da viagem de Porto alegre do Norte até Campinas, utilizando os conceitos de escala e orientação. Superou a visão estática que tinha dos fatos históricos, conseguindo relacioná-los entre si e perceber a alternância, a simultaneidade, a periodização.
Nessa fase do curso ela começou perceber profundamente a diferença de uma prática metodológica participativa e não participativa. Essa compreensão, que foi se dando aos poucos, ajudou-a a ser mais paciente diante das próprias dificuldades e a vencer a irritabilidade inicial, quando não chegava logo no resultado final.
Foi assídua e pontual em todas as etapas.
Participou das atividades de lazer e do trabalho coletivo de limpeza do alojamento. Esteve sempre disposta a ajudar colegas que tinham mais dificuldade.
Passando, no trabalho de sala de aula, o mesmo processo que viveu nas etapas intensivas.  Ao iniciar o Projeto tinha já algum tempo de experiência bem sucedida na área de alfabetização. Mantinha um relacionamento considerável, porém com um pouco de autoritarismo com seus alunos no sentido de dar responsabilidade a todos.
Nos primeiros tempos facilitou entre sua prática antiga na qual tinha segurança e a nova proposta metodológica que ela mesma só foi descobrindo aos poucos, na medida em que se sucediam as etapas intensivas.
Uma de suas primeiras experiências de mudança em sala de aula foi o aproveitamento dos trabalhos de Educação Artística. Muito criativa, a cursista incentivou as crianças na confecção de objetos artesanais aproveitando argila, sucata; trabalhava com teatro e dramatização; confeccionava livrinhos de história infantil junto com seus alunos. Expunha seus trabalhos para as outras classes, para os pais, levava amostras para os colegas nos Encontros Pedagógicos; nesse processo, melhorou muito a relação com os colegas e alunos, trocando o autoritarismo inicial por uma relação prazerosa de confiança e colaboração.
O próximo passo dela foi conseguir identificar os centros de interesse das crianças e aproveitar os temas geradores de conteúdos de forma interdisciplinar. Citando um exemplo, no Dia Nacional do Meio Ambiente, aproveitou as notícias do rádio, leu um texto e abriu um debate entre as crianças, que levantaram os temas: poluição dor ar e da água (rio); desmatamento e reflorestamento; queimadas; destruição dos animais. Os alunos se organizaram em grupos para estudar um desses temas; representaram o assunto em cartazes, fizeram textos, organizaram dramatizações... Ao final das apresentações a professora coordenou o levantamento dos conteúdos que seria importante estudarem em Estudos Sociais, Ciências Biológicas, Matemática.
Desse trabalho resultou uma pesquisa junto ao pessoal do INDEA (instituto Nacional de Defesa da Amazônia) para saber as leis que regulamentam a pesca, o desmatamento, a queimada. No início Jurandina tinha dificuldade para fazer essa parte de exploração dos temas, estudando os conteúdos sugeridos fazendo acontecer, da teoria à prática com certa facilidade.
Fez experiências de Física com seus alunos com o gnomo, penico e ouriço solar. Seus alunos constataram, pela observação sistemática da trajetória (aparente) do sol, os dias exatos em que o sol cruza a linha do Equador. Trabalha as noções de matemática e partir de problemas reais e utiliza material concreto e instrumentos didáticos que ela constrói junto com as crianças.
Participou de todos os Encontros Pedagógicos das etapas intensivas aprendendo a conviver em grupo, a colaborar com os colegas, a tirar suas dúvidas sobre os assuntos estudados nas etapas intensivas. Muito extrovertida, tem sempre propostas interessantes de animação do grupo. Apresenta trabalho de seus alunos e explica todo o processo de produção.
Portanto foi uma cursista que viveu um processo evolutivo marcado pela persistência e força de vontade em desenvolver um trabalho de qualidade. Tem um bom domínio dos conteúdos de 1º e 2º graus e uma clareza em relação aos aspectos, mitológicos e metodológicos que lhe dão certa segurança e satisfação no trabalho.
Recebe o apoio dos colegas da mesma escola, com quem ela gosta de trabalhar em conjunto e também dos seus alunos e dos pais, que a elogiam pelo bom desenvolvimento. A cursista tem o cuidado de fazer exposições dos trabalhos das crianças, o que serve a todos de incentivo.
EQUIPE DE COORDENADORES E PROFESSORES PROJETO INAJÁ I. 
Santa Terezinha, 05/11/91”
        Notei muito antes do encerramento do curso, que com aquela experiências e um novo jeito de olhar o mundo em minha volta, realmente era o início da minha carreira profissional, bons momentos da vida sendo realizados, feito de tudo o que é forte, simples e belo, como um olhar, um sorriso, um gesto de amizade que foram sendo cultivados. Muitos desafios foram sendo vencidos e outros objetivos sendo lançados.
            Naquele momento e porque não hoje, agradecer a Deus e a minha família, meus filhos que eram tão pequenos quando tiveram que crescer para se virarem sozinhos em casa durante as férias escolares deles. Agradecer a todos que compartilharam comigo, suas experiências no decorrer do curso as quais alavancaram a minha carreira como professora alfabetizadora e depois uma graduada e especialista em matemática geométrica.
            Formação acadêmica que me fez sentir um ser humano mais forte, mais reconhecida, com um amor mais significativo pelo trabalho prestado a sociedade, reconhecendo melhor a maneira de refazer planos, reconsiderar os equívocos e retomar o caminho para uma vida cada vez mais completa e feliz.
Jurandina Barbosa.


Nenhum comentário: